Warhol, apesar de mim
Resenha publicada na Le Monde Diplomatique Brasil
Por Fabian Alonso
América, Andy Warhol - L&PM Editores
Abril 2013 - resenha

Pode soar a sacrilégio, mas nunca fui muito fã das obras de Andy Warhol, nem sequer do movimento pop art que ele tão bem personifica, muito menos da figura excêntrica e superficial que, em alguns momentos, representa. Mas tudo isso foi antes de eu ter a oportunidade de devorar o livro América.
Andy Warhol oferece, neste livro, um compilado de mais de dez anos de compulsivos cliques, nos quais comprime, em inúmeras fotos e relatos, suas maiores obsessões: as celebridades, a exótica fauna nova-iorquina e sua visão pessoal do “sonho americano”. Sempre presente com sua câmera, garimpa acontecimentos que o aproximem das figuras que tanto admirava e das quais, ironicamente, se sentia excluído.
A maioria das fotografias do livro não se destaca pela técnica ou preciosismo estético, mas por um olhar singular, uma forma de ver que convida a mergulhar no passado e reviver o instante exato do clique. É difícil não pensar no quanto Warhol pode ter sido influente para essa nova democratização e alfabetização visual que hoje se manifesta em plataformas como o Instagram e na cultura da imagem imediata.
O que mais surpreende neste livro são os textos, como se pudéssemos ouvir a voz em off do autor costurando cada páginas com um relato ingênuo, pessoal, divertido e deliciosamente inseguro sobre suas próprias convicções.
Na última parte do livro, surge um Warhol mais analítico, intimista e irônico, que despeja um delicioso bom senso repleto de bofetadas à sociedade americana. Divaga sobre uma América fora de Nova York, sobre o provincianismo, as trivialidades do “american way of life”, o isolamento intelectual e o hermético umbigo dos estadunidenses. Chega a se expor, num exercício de autoflagelo, ao compartilhar anedotas e pensamentos de um frágil e inseguro geniozinho que escondia sua timidez atrás de uma câmera e um gravador.
Andy Warhol é considerado um dos artistas mais importantes do século XX, não somente por sua hiperativa e multidisciplinar produção, mas também por ter sido uma figura repleta de excentricidades e obsessões que se veem refletidas nesta publicação.
Warhol afirmou um dia que “todas as pessoas teriam, no futuro, 15 minutos de fama” — e este futuro já chegou.
