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Paisagens rurais e urbanas

Andy Goldsworthy/Banksy

 2003/04 - Ensayo

Foi na minha adolescência, quando frequentava classes de desenho artístico, que algumas perguntas sobre o que é arte e para que ela serve surgiram na minha mente. Eu aprendi sobre a importância da beleza, da composição, das técnicas, etc., mas também sentia curiosidade sobre o uso da arte como ferramenta de transformação social ou meio de atuar em prol de uma causa específica. Naquela época, muito influenciado pelo contato com a natureza, atividades ao ar livre e alguns movimentos ambientais, encontrei Andy Goldsworthy em uma revista alternativa. Essa matéria me apresentou uma visão fantástica sobre a arte contemporânea: algo esteticamente belo e, ao mesmo tempo, com uma abordagem quase ecológica. Vi seu trabalho várias vezes antes de me interessar pelo significado por trás dele e me perguntar se tinha relação com alguma causa, como eu imaginava; rapidamente fiquei entediado.

 

Comecei a trabalhar neste ensaio pesquisando a obra de Goldsworthy e de outros artistas de land-art, como Richard Long, Gabriel Orozco e Robert Smithson, quando folheando uma revista masculina, me deparei com uma entrevista de um jovem artista de graffiti chamado Banksy,  Reconheci algumas imagens das paredes do meu bairro, mas não percebi que todas aquelas obras divertidas e controversas poderiam ser do mesmo enigmático artista.

 

De repente, no meio da pesquisa, percebi que estava diante de outro artista de land art — um artista de land art urbana. É improvável que Banksy aceitasse esse rótulo (ou qualquer outro que tentasse enquadrá-lo), mas, naquele instante, a provocação se impôs: havia ali um ponto de partida fértil para investigação. A partir daí, decidi refletir sobre o “impacto espiritual, minimalista e efêmero” da obra de Goldsworthy, em contraste com a guerrilha subversiva, lúdica e carregada de ironia e provocação de Banksy
 

Andy Goldsworthy integra o movimento conhecido como land-art, em que artistas retiraram suas obras das galerias e museus para trabalhar diretamente com a terra. Esse movimento também foi chamado de earthwork (“obra de terra”), justamente porque suas criações parecem surgir sem intervenção humana. Essa ambiguidade contrasta com a suposição de autoria e, ao mesmo tempo, sugere uma relação antropológica com sinais inexplicáveis espalhados pelo mundo — como as enormes pinturas pré-incas descobertas na América do Sul.

Em 1976, depois de uma década de experimentações, Goldsworthy iniciou sua carreira lidando com conceitos de natureza, com materiais naturais e com a própria ideia de deterioração. Ele foi influenciado pelo livro Six Years de Lucy Lippard — The Dematerialization of the Art Object from 1966 to 1972 — obra marcada pelo antiformalismo e pela valorização do processo artístico como resultado em si mesmo.

 

Banksy, por sua vez, emergiu de outro contexto. Inspirado pela vibrante cena de graffiti em Brixton, começou ainda adolescente, aos quatorze anos, a desenvolver uma identidade própria. Adotou o estilo old-school dentro da técnica do stencil e, vindo da cultura underground, logo se destacou por um graffiti que dialogava diretamente com o urbanismo da cidade. Ao se mudar para Londres, encontrou infinitas possibilidades de enquadramento para sua irreverência, além de símbolos e signos da sociedade de consumo de massa que alimentaram sua produção crítica e irônica.

Suas influências vão além da arte de rua: Banksy se inspira em Harry Houdini, performer que nunca temia falhar em público e que dominava o timing com maestria. Para ele, Houdini foi “uma verdadeira ponte entre arte e vida real”. Dessa inspiração, herdou também a ideia de que a arte, em essência, é entretenimento.
 

As obras de Goldsworthy são apresentadas tanto em livros quanto em instalações. Alguns de seus livros assumem o formato de diário, revelando todo o processo por trás das criações: as experiências durante o desenvolvimento, as pessoas que conheceu e os desafios que enfrentou. Isso fica especialmente evidente em Arch (1999) e Midsummer Snow Balls (2001). Em Arch, ele narra a história da terra, mostrando a construção de diversos arcos de pedra ao longo das rotas pelas quais as ovelhas eram levadas aos mercados na Inglaterra. Já em Midsummer Snow Balls, espalhou treze enormes bolas de neve por pontos da cidade de Londres durante a noite e, nos dias seguintes, registrou a reação e a interação das pessoas em pleno verão londrino, cujas rotinas foram invadidas por aquelas massas de neve que derretiam, revelando lembranças escondidas do campo.

Em outros livros, podemos encontrar uma espécie de catálogo de experimentações com materiais naturais, revelando sua percepção de tempo, equilíbrio, estabilidade, mudança, impermanência — e até a ideia de que uma parede “anda”, movida por sua energia interna, ativada pelo artista através do processo físico e da passagem do tempo.

 

“STOP ME BEFORE I PAINT AGAIN.”

Hiperprodutivo, Banksy revela nessa frase sua necessidade desesperada de se comunicar. Seus stencils estão espalhados por Londres e Brixton, com intervenções também em Berlim, Barcelona, Nevada, São Francisco, entre outros lugares.

Ele trabalha com delicadeza e subversão: policiais com rostos sorridentes, manifestantes segurando flores, gangues de ratos armados conspirando para dominar a superfície, macacos com armas de destruição em massa, meninas abraçando mísseis, policiais passeando com poodles, Samuel L. Jackson e John Travolta em Pulp Fiction disparando bananas em vez de armas. Às vezes, são apenas palavras — trocadilhos, ironias, declarações ou provocações. Em marcos tradicionais, costuma assinar: “This is not a photo opportunity”. Seus lugares preferidos incluem linhas de trem, praças públicas, pontes, delegacias e zoológicos, como em Barcelona, Bristol e Londres, onde invadiu o recinto dos pinguins e pintou: “Estamos cansados de peixe — queremos ir para casa”.

Publicou dois livros, Existencilism e Banging Your Head Against a Brick Wall, que venderam mais de 55.000 cópias até 2003, e outro seria lançado em breve (Cut It Out, pela Weapons of Mass Distraction). Diversifica sua obra: pintou um quarto de hotel em Nova York, onde cada quarto é de um artista diferente, e projetou a capa do álbum Think Tank, da banda Blur. Também recusou duas propostas da Nike para desenvolver trabalhos.
 

Goldsworthy utiliza uma ampla variedade de materiais naturais: folhas, cascas, galhos, pétalas, frutas, pedras, argila, penas, neve, gelo e muito mais. Sua escala vai do minúsculo — folhas e gramíneas — ao monumental, como enormes pirâmides de pedras sobrepostas. Ele caracteriza seu trabalho por uma relação artesanal: utiliza suas próprias mãos combinadas com técnicas de artesãos locais e primitivas para atingir seus objetivos. No entanto, também se vale de ferramentas, caminhões articulados e até escavadeiras para criar esculturas de pedra ou terra em grande escala, o que, de certa forma, entra em contradição com seu compromisso declarado de causar impacto mínimo e temporário ao meio ambiente.

Algumas pessoas afirmam que Banksy “personalizou” a cidade, apropriando-se dela para si. Ele atua no subterrâneo urbano, criando obras extravagantes de graffiti que lhe deram voz para expressar sua visão de um mundo que, como disse ingenuamente, “só quer deixar o lugar mais bonito”. Usa stencils, spray e bom senso; às vezes volta para casa sem pintar, simplesmente porque não encontrou o lugar certo para sua intervenção.

Mesmo arriscando-se, já foi flagrado manipulando um outdoor em Nova York, Banksy continua espalhando mensagens: “By Order National Highways Agency This Wall Is A Designated Graffiti Area” (Por ordem da Agência Nacional de Rodovias, este muro é uma área designada para graffiti) ou “Mind the Crap” (Cuidado com a porcaria), assinando escadas que levam à Tate Gallery na noite anterior à cerimônia do Turner Prize, ou criando intervenções irônicas envolvendo a família real. Em 2003, por exemplo, um painel de graffiti em Hackney representava a família real de forma caricaturada; em outra obra, Banksy retratou a Rainha Elizabeth como um macaco com adereços reais, gerando contestação nos tribunais e reforçando seu estilo provocativo e crítico às instituições.

Ao documentar sua obra, Goldsworthy incentiva o leitor a acompanhar o processo criativo, mostrando cada passo até a concretização do trabalho. Ele também utiliza textos explicativos que revelam seus métodos e filosofia. O encanto de suas criações não reside apenas no resultado final, mas na beleza de sua própria execução. Confiando plenamente nos materiais naturais, manipula-os no local de trabalho, raramente permanecendo por muito tempo no mesmo lugar. Suas obras crescem, permanecem e se deterioram — derretem, desaparecem ou são levadas pelo vento — sempre ligadas à sua preocupação de longo prazo com o tempo, tema que ele explora em seu livro Time (2002), uma compilação de trabalhos antigos e recentes que dialogam com essa dimensão.
 

Banksy, por outro lado, acredita que desenhar a imagem é apenas parte do processo; o mais importante é posicioná-la em outro contexto, onde ela adquira significado ou ressonância. Pouquíssimas pessoas conhecem sua aparência, já que ele atua discretamente durante a noite. Sua ideia é simplesmente se expressar, mesmo que sua obra seja removida ou coberta no dia seguinte. Em suas próprias palavras: “Se não gostar, pode pintar por cima.”

 

Ao escrever este ensaio, tentei encontrar pelo menos um dos livros de Banksy. A busca foi difícil: estavam esgotados em todas as livrarias de Oxford e nas principais de Londres, mostrando que nosso prolífico “writer” de graffiti havia conseguido vender muito bem durante o Natal. Finalmente, encontrei uma cópia de Existencilism, que funciona quase como uma versão impressa de seu site. Interessante notar que o título não é apenas um jogo de palavras sem sentido: o livro mostra momentos de sua assinatura em tipografia robusta (às vezes redundante), imagens de suas obras mais políticas e textos que parecem justificar suas ações, ajudando-o a se encontrar.


 

“Sim, é tudo sobre retaliação de verdade”, disse Banksy. “Apenas fazer uma tag é sobre retaliação. Se você não possui uma companhia de trens, então você pinta em um. Tudo vem daquela coisa da escola, quando você tinha que ter seu nome atrás de algo – isso faz com que pertença a você. Você pode possuir metade da cidade rabiscando seu nome nela.”

 

—retirado da matéria "Something to Spray" (17 de julho de 2003), The Guardian

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Encontrar um aspecto filosófico nos livros de Banksy pode ser comparado a qualquer livro de Goldsworthy (não quanto à publicação); ambos apresentam imagens de suas obras, textos explicativos e conceitualizações, e são profundamente influenciados pelo ambiente em que vivem e atuam. Goldsworthy, por exemplo, utiliza “materiais brutos” do campo onde reside. Documenta o processo criativo e tira suas próprias conclusões sobre a narrativa criada em contraste com a paisagem, sendo politicamente correto e difícil de criticar. Banksy, por sua vez, usa stencils como ferramenta principal, explora novas formas de comunicação, sempre polêmico e irônico; ele transforma a cidade não apenas em moldura, mas também em fonte de inspiração. Emprega simbolismos da sociedade de consumo de massa, convertendo-os em “armas de distração em massa” por meio do que chamou de “brandalismo”. Além disso, aprecia a crítica e sabe lidar com ela, inserindo-a como co-protagonista de suas próprias obras (ver seção “Your Letters…” em Existencilism).

 

Lembro-me de que, em determinado momento, cheguei a pensar que escrever sobre Goldsworthy poderia ser entediante; talvez porque, ao tentar refletir sobre os processos narrativos de sua obra, percebi que ele já trazia um resultado pronto para sua própria obra: “aqui está, e você só pode se perguntar do que foi feito”; é como ler de trás para frente uma fascinante imagem que o artista nos oferece, sem dar espaço para interpretação livre. Já as imagens de Banksy estão carregadas de narrativa e questionamento, transformando cada parede da cidade em um quadro de história em quadrinhos, em manchete de jornal ou, na maioria das vezes, em uma reflexão irônica e perturbadora sobre a sociedade.

Goldsworthy concebeu certa vez um muro que saiu para passear (A Wall that Went for a Walk, 1989); fico imaginando como Banksy reagiria ao encontrar esse muro transeunte em uma de suas noites de ação.
 

Este ensaio foi escrito em dezembro de 2003.  A presente tradução para o português foi realizada em Setembro de 2025 e está em contínua revisão.

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BIBLIOGRAFIA

 

BEALE, Steve. Interviewing Banksy. ARENA Magazine, n. 142, jan. 2004.

HATTENSTONE, Simon. Something to Spray. The Guardian, 17 jul. 2003.

PHILLIPS, Andrea. Walking Walls. Ensayo, 2001.

MCELRO, P.; MOORHOUSE, D. Richard Long: A Moving World. London: Tate, 2003.

BANKSY. Existencilism. England: Weapons of Mass Distraction, 2002.

GOLDSWORTHY, A. Time. London: Thanes & Hudson Ltd., 2002.

GOLDSWORTHY, A. Midsummer Snowballs. London: Thanes & Hudson Ltd., 2001.

THOMPSON, J.; GOLDSWORTHY, A. Wall. London: Thanes & Hudson Ltd., 2000.

CRAIG, D.; GOLDSWORTHY, A. Arch. London: Thanes & Hudson Ltd., 1999.

GOLDSWORTHY, A. Stone. London: Viking - Penguin Books Ltd., 1994.

GOLDSWORTHY, A. Andy Goldsworthy. London: Viking - Penguin Books Ltd., 1990.

BANKSY. Disponível em: http://www.banksy.co.uk. Acesso em: 27 dez. 2003.

ART OF THE STATE. Disponível em: http://www.artofthestate.co.uk/subpages/banksy.htm. Acesso em: 27 dez. 2003.

BBC NEWS. Disponível em: http://news.bbc.co.uk/go/pr/fr/-/1/hi/entertainment/arts/3201344.stm. Acesso em: 27 dez. 2003.

Huáça (pron. hu-á-ça /uˈa.sɐ/) é uma palavra de caráter evocativo, construída por aproximação sonora e conceitual a noções de abrigo e interior presentes em diferentes troncos linguísticos originários do território. Não reivindica autenticidade etnográfica nem tradução literal. Opera como palavra-fenda: um abrigo provisório de sentido e de transgressão poética.

Este projeto foi contemplado pelo 1o edital de Residência Artística ARCO – Arte Compartilhada, realizada no CAEB – Centro Ambiental Eduardo Bonetti, em São José dos Campos/SP,

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